O Recife possui a terceira região metropolitana mais “lenta” do País, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O tempo médio no deslocamento casa-trabalho na RMR é de aproximadamente 35 minutos. Esse indicador é muito distante do quanto os recifenses perdem no trânsito quando saem de casa ou retornam nos horários de pico. Com um território muito menor que grandes cidades do mundo, o tempo gasto no trânsito da RMR é superior a cidades como Tóquio e Sidney, além de superar todas as grandes cidades americanas.
Além do tempo gasto, a qualidade de vida do Recife - desgastada não apenas pelo trânsito, mas por questões de infraestrutura, meio ambiente e habitação – apareceu numa posição bem constrangedora no Índice de Bem Estar Urbano (IBEU), elaborado pelo Observatório das Cidades, da UFRJ. Oito cidades da RMR estiveram presentes no ranking dos 40 municípios do País com pior indicador de bem estar urbano.
UM PASSO PARA CIDADANIA. Para discutir os problemas e as soluções urbanas para a capital pernambucana, o Grupo de Trabalho de Espaço Urbano, Mobilidade e Moradia do Observatório do Recife (ODR) está trabalhando até o final do ano o tema A Mobilidade que Precisamos. Considerando a calçada como o primeiro degrau da cidadania urbana, o ODR iniciou em agosto o ciclo de palestras com o tema Caminhar é Preciso. “O pedestre é o elemento mais fraco da cadeia da mobilidade. E caminhar é o que nos faz humanos e o que nos faz urbanos também”, destacou o consultor Francisco Cunha, responsável pela palestra em homenagem ao dia do pedestre.
No Recife, 70% das pessoas utilizam as calçadas no seu deslocamento diário, metade se locomovendo exclusivamente a pé e a outra metade usando transporte público (ônibus ou metrô) e completando seu percurso como pedestre. Os demais 30% da população utilizam carro. Apesar disso, Francisco Cunha alerta que 75% das vias da cidade são usadas pelo transporte individual. “Andar a pé é um modal e a calçada é a principal via da cidade. Numa metrópole como o Recife, um único modal não é suficiente, é necessário o maior número possível de opções para se locomover”, afirma.
No ranking elaborado pelo site Mobilize Brasil, onde foram avaliadas as calçadas de 12 regiões metropolitanas brasileiras, o Recife ficou com o quarto pior desempenho. Mas toda a população se incomoda com os buracos, ambulantes e postes que ocupam o estreito espaço de deslocamento dos pedestres, poucos se dispõem a combater esse descontrole urbano. “Há um comportamento muito passivo do pedestre. Mesmo quando veem aberrações, as pessoas silenciam”, critica o engenheiro Luiz Helvécio, ex-vereador e relator do projeto que gerou a Lei das Calçadas, em 2003. Helvécio lembra que a condição das nossas calçadas afastou os cadeirantes, idosos e os carrinhos de bebê das ruas da cidade.
Além da má qualidade e despadronização das calçadas, existem outros fatores que desestimulam o deslocamento a pé. De acordo com as pesquisas da professora da Unicap e mestre em Planejamento Urbano na Universidade Paris 1 Pantheon Sorbonne, Clarissa Duarte, existem quatro elementos que afastam os pedestres das ruas, dois relacionados a segurança (trânsito e violência urbana) e dois ao conforto (ambiental e espacial). “Imaginemos que hoje tivéssemos todas as calçadas pavimentadas e dentro das normas, isso seria ainda insuficiente para permitir mobilidade com qualidade para os pedestres. Segurança e conforto são fundamentais para obter um nível elevado de atratividade e urbanidade das calçadas”, defende a arquiteta.
Quanto a segurança no trânsito, Clarissa Duarte afirma que é necessário que o Poder Público aja de forma mais incisiva para promover a redução da velocidade dos veículos. “Em alguns lugares é preciso estreitar as faixas de rolamento de veículos para reduzir a velocidade dos carros. Além disso, para promover uma sensação de segurança maior, é importante alargar as calçadas.” Comparando o Recife a Paris, a arquiteta lembra que a largura média do trajeto dos pedestres no Recife é inferior a 1,5 metro, enquanto que na capital francesa fica entre 6 e 8 metros.
A sensação de insegurança – no que se refere a violência urbana – é outro elemento que afasta os pedestres da rua. Além dos índices de assaltos em alguns bairros da cidade, a própria arquitetura recifense alimenta o medo dos cidadãos se deslocarem a pé. Independentemente de determinadas ruas possuírem ou não registros de violência, os recifenses tem a sensação de insegurança devido aos muros elevados das casas e edifícios da cidade. “No passado tínhamos uma arquitetura urbana, a de hoje é antiurbana e anti-humana”, pontua Clarissa. Em bairros com o de Boa Viagem, que tem calçadas com boa avaliação pelos institutos de pesquisa, a ausência de pedestres está relacionada a esse fator.
Numa cidade tropical, com temperaturas elevadas, como o Recife, a arborização feita de modo correto é um elemento que auxiliaria no conforto dos pedestres. De acordo com o estudo da Mobilize Brasil, apenas 60,5% das nossas vias possuem árvores. Em Campo Grande, esse índice é de 96,3%. Além disso, os urbanistas alertam que o plantio equivocado das árvores pode inclusive comprometer o deslocamento do pedestre e quebrar o piso das calçadas.
Acerca da responsabilidade de quem deve ser a construção e manutenção das calçadas ainda reside um debate. Alguns especialistas defendem que os moradores e comerciantes assumam os custos e manutenção das suas calçadas, como define a lei atualmente. Para outros, essa exigência é impossível de ser cumprida na prática, pois mais que os recursos financeiros, seria difícil imaginar que os moradores pudessem se unir para construir e realizar a manutenção de forma padronizada e simultânea.
Para os defensores do financiamento e gestão por parte das prefeituras, apenas o poder público teria condições de garantir que todas as calçadas cheguem aos padrões da Norma Brasileira de Acessibilidade (a NBR-9050). "Uma das alternativas para que as prefeituras tivessem recursos para custear a manutenção das calçadas seria a realização de parcerias público-privadas (PPP), onde a iniciativa privada se responsabilizaria pela construção desses espaços viários e teria como contrapartida a publicidade em mobiliários urbanos", sugere Clarissa Duarte.
INTERVENÇÃO PÚBLICA. Ao mesmo tempo que começa a agir de forma mais acentuada no controle urbano, a Prefeitura do Recife está promovendo a revitalização de parte das calçadas. De acordo com o secretário de mobilidade, João Braga, neste ano a PCR está aplicando R$ 20 milhões para construção de aproximadamente 140 quilômetros de calçadas nas principais vias da cidade. “Esses investimentos estimulam o deslocamento a pé. Pequenas distâncias a serem percorridas nos bairros precisam ser resolvidas com calçadas e para trechos um pouco maiores com bicicletas. E para grandes distâncias a opção principal deve ser o transporte público, integrando o pedestre com modais de ônibus e metrô”, afirma o secretário João Braga.
