domingo, 8 de setembro de 2013

Caminhar no Recife é preciso

Os problemas com o deslocamento urbano incomodam muito todos os recifenses. A cobrança por uma mobilidade mais eficiente nas cidades que compõem as metrópoles brasileiras, incluindo a RMR, ficou mais evidente com os manifestos populares dos últimos meses. Seja ciclista, motorista, pedestre ou usuário de transporte público, ninguém escapa dos congestionamentos, buracos e falta de qualidade das opções de transporte. É para discutir os caminhos a serem percorridos pelos diversos tipos de modais de transporte que iniciamos nesta edição uma série de reportagens discutindo a mobilidade que precisamos.

O Recife possui a terceira região metropolitana mais “lenta” do País, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O tempo médio no deslocamento casa-trabalho na RMR é de aproximadamente 35 minutos. Esse indicador é muito distante do quanto os recifenses perdem no trânsito quando saem de casa ou retornam nos horários de pico. Com um território muito menor que grandes cidades do mundo, o tempo gasto no trânsito da RMR é superior a cidades como Tóquio e Sidney, além de superar todas as grandes cidades americanas.

Além do tempo gasto, a qualidade de vida do Recife - desgastada não apenas pelo trânsito, mas por questões de infraestrutura, meio ambiente e habitação – apareceu numa posição bem constrangedora no Índice de Bem Estar Urbano (IBEU), elaborado pelo Observatório das Cidades, da UFRJ. Oito cidades da RMR estiveram presentes no ranking dos 40 municípios do País com pior indicador de bem estar urbano.

UM PASSO PARA CIDADANIA. Para discutir os problemas e as soluções urbanas para a capital pernambucana, o Grupo de Trabalho de Espaço Urbano, Mobilidade e Moradia do Observatório do Recife (ODR) está trabalhando até o final do ano o tema A Mobilidade que Precisamos. Considerando a calçada como o primeiro degrau da cidadania urbana, o ODR iniciou em agosto o ciclo de palestras com o tema Caminhar é Preciso. “O pedestre é o elemento mais fraco da cadeia da mobilidade. E caminhar é o que nos faz humanos e o que nos faz urbanos também”, destacou o consultor Francisco Cunha, responsável pela palestra em homenagem ao dia do pedestre. 

No Recife, 70% das pessoas utilizam as calçadas no seu deslocamento diário, metade se locomovendo exclusivamente a pé e a outra metade usando transporte público (ônibus ou metrô) e completando seu percurso como pedestre. Os demais 30% da população utilizam carro. Apesar disso, Francisco Cunha alerta que 75% das vias da cidade são usadas pelo transporte individual. “Andar a pé é um modal e a calçada é a principal via da cidade. Numa metrópole como o Recife, um único modal não é suficiente, é necessário o maior número possível de opções para se locomover”, afirma.

No ranking elaborado pelo site Mobilize Brasil, onde foram avaliadas as calçadas de 12 regiões metropolitanas brasileiras, o Recife ficou com o quarto pior desempenho. Mas toda a população se incomoda com os buracos, ambulantes e postes que ocupam o estreito espaço de deslocamento dos pedestres, poucos se dispõem a combater esse descontrole urbano. “Há um comportamento muito passivo do pedestre. Mesmo quando veem aberrações, as pessoas silenciam”, critica o engenheiro Luiz Helvécio, ex-vereador e relator do projeto que gerou a Lei das Calçadas, em 2003. Helvécio lembra que a condição das nossas calçadas afastou os cadeirantes, idosos e os carrinhos de bebê das ruas da cidade.

Além da má qualidade e despadronização das calçadas, existem outros fatores que desestimulam o deslocamento a pé. De acordo com as pesquisas da professora da Unicap e mestre em Planejamento Urbano na Universidade Paris 1 Pantheon Sorbonne, Clarissa Duarte, existem quatro elementos que afastam os pedestres das ruas, dois relacionados a segurança (trânsito e violência urbana) e dois ao conforto (ambiental e espacial). “Imaginemos que hoje tivéssemos todas as calçadas pavimentadas e dentro das normas, isso seria ainda insuficiente para permitir mobilidade com qualidade para os pedestres. Segurança e conforto são fundamentais para obter um nível elevado de atratividade e urbanidade das calçadas”, defende a arquiteta.

Quanto a segurança no trânsito, Clarissa Duarte afirma que é necessário que o Poder Público aja de forma mais incisiva para promover a redução da velocidade dos veículos. “Em alguns lugares é preciso estreitar as faixas de rolamento de veículos para reduzir a velocidade dos carros. Além disso, para promover uma sensação de segurança maior, é importante alargar as calçadas.” Comparando o Recife a Paris, a arquiteta lembra que a largura média do trajeto dos pedestres no Recife é inferior a 1,5 metro, enquanto que na capital francesa fica entre 6 e 8 metros.

A sensação de insegurança – no que se refere a violência urbana – é outro elemento que afasta os pedestres da rua. Além dos índices de assaltos em alguns bairros da cidade, a própria arquitetura recifense alimenta o medo dos cidadãos se deslocarem a pé. Independentemente de determinadas ruas possuírem ou não registros de violência, os recifenses tem a sensação de insegurança devido aos muros elevados das casas e edifícios da cidade. “No passado tínhamos uma arquitetura urbana, a de hoje é antiurbana e anti-humana”, pontua Clarissa. Em bairros com o de Boa Viagem, que tem calçadas com boa avaliação pelos institutos de pesquisa, a ausência de pedestres está relacionada a esse fator.

Numa cidade tropical, com temperaturas elevadas, como o Recife, a arborização feita de modo correto é um elemento que auxiliaria no conforto dos pedestres. De acordo com o estudo da Mobilize Brasil, apenas 60,5% das nossas vias possuem árvores. Em Campo Grande, esse índice é de 96,3%. Além disso, os urbanistas alertam que o plantio equivocado das árvores pode inclusive comprometer o deslocamento do pedestre e quebrar o piso das calçadas.

Acerca da responsabilidade de quem deve ser a construção e manutenção das calçadas ainda reside um debate. Alguns especialistas defendem que os moradores e comerciantes assumam os custos e manutenção das suas calçadas, como define a lei atualmente. Para outros, essa exigência é impossível de ser cumprida na prática, pois mais que os recursos financeiros, seria difícil imaginar que os moradores pudessem se unir para construir e realizar a manutenção de forma padronizada e simultânea. 

Para os defensores do financiamento e gestão por parte das prefeituras, apenas o poder público teria condições de garantir que todas as calçadas cheguem aos padrões da Norma Brasileira de Acessibilidade (a NBR-9050). "Uma das alternativas para que as prefeituras tivessem recursos para custear a manutenção das calçadas seria a realização de parcerias público-privadas (PPP), onde a iniciativa privada se responsabilizaria pela construção desses espaços viários  e teria como contrapartida a publicidade em mobiliários urbanos", sugere Clarissa Duarte.

INTERVENÇÃO PÚBLICA. Ao mesmo tempo que começa a agir de forma mais acentuada no controle urbano, a Prefeitura do Recife está promovendo a revitalização de parte das calçadas. De acordo com o secretário de mobilidade, João Braga, neste ano a PCR está aplicando R$ 20 milhões para construção de aproximadamente 140 quilômetros de calçadas nas principais vias da cidade. “Esses investimentos estimulam o deslocamento a pé. Pequenas distâncias a serem percorridas nos bairros precisam ser resolvidas com calçadas e para trechos um pouco maiores com bicicletas. E para grandes distâncias a opção principal deve ser o transporte público, integrando o pedestre com modais de ônibus e metrô”, afirma o secretário João Braga.



domingo, 18 de agosto de 2013

"Diploma representa passaporte para vida melhor"

Reitora do IFPE, Cláudia Sansil, fala sobre os investimentos em qualificação de mão de obra e do impacto da chegada desses centros de formação no crescimento profissional dos jovens.

Quais os planos de expansão do IFPE para atender as demandas de formação desse novo momento do Estado?
Estamos iniciando a Fase III da Expansão da Rede Federal. O IFPE recebeu 7 novos campi.  O Governo Federal destina 7,5 milhões para cada unidade. Em alguns casos, as prefeituras aportam valores com vistas a terem um campus mais completo à comunidade. A chegada de uma unidade representa muito à cidade. Significa desenvolvimento, realização do sonho de muitas famílias de qualificação e de formação. O diploma representa o passaporte a uma vida melhor. Com a formação técnica qualificada do IFPE, a remuneração será, em média, 30% maior dos que não possuírem o diploma.

Em Ipojuca, vocês tem algum retorno das empresas sobre o desempenho e o aproveitamento dos alunos no mercado?
O campus Ipojuca é modelo. Tem uma localização privilegiada, está cravado no entorno de empresas e de indústrias. Nos diálogos com as empresas, buscamos compreender as demandas e fazemos adequações para estabelecermos sintonia com elas. Desde o início das aulas o estudante é posto em contato com seus possíveis empregadores. Os laços estreitos geram oportunidades. Muitos de nossos estudantes nem terminam a formação e já estão empregados.

Há um esforço do poder público na capacitação de mão de obra em Pernambuco, para atender a demanda urgente por profissionais. Após esse primeiro momento de milhares de oportunidades de qualificação, quais o passo seguinte para reverter esse gargalo de mão de obra?
Políticas públicas permanentes e não sazonais. Nunca se investiu tanto em educação como na última década. Só no nível federal foram aportados pelo Ministério da Educação, em 2012, R$ 8,28 bilhões. O orçamento do IFPE é maior do que alguns pequenos municípios, R$ 200 milhões, sem a folha de pagamento. Esse cenário ainda não é o ideal, pois o passivo é gigantesco. Uma nação para ser grande precisa investir forte em educação. É preciso priorizar a carreira do magistério, ampliar a formação continuada dos professores e técnicos, possibilitar condições de trabalho dignas a educadores, além de cuidar da educação básica. Alicerçando esses pilares, deve-se estabelecer um plano com metas e definir quais as prioridades a partir do crescimento econômico e das necessidades apontadas pelo mercado.

domingo, 11 de agosto de 2013

Crescem as estruturas de formação de mão de obra no Estado

 Ao passo que crescem as oportunidades de trabalho e que aumenta a pressão por mão de obra, as instituições de formação profissional do Estado vêm aumentando o número de vagas e as opções de cursos. Só no Senai, a oferta de vagas saltou de 24,5 mil no ano de 2006 para quase 70 mil no ano passado. Em 2013, nos cinco primeiros meses do ano, foram registradas 32,6 mil matrículas. Além do maior volume de alunos nas salas de aula, a quantidade de bolsas para estudo gratuito também tem crescido consideravelmente. Em 2012, 14,4 mil estudantes se capacitaram gratuitamente na instituição.

Para dar conta da nova dinâmica econômica do Estado e seguir aumentando e qualificando a oferta de formação profissional, a instituição vem recebendo investimentos elevados. Só no ano passado foram mais de R$ 24,6 milhões. Para os próximos três anos as expectativas são de investimentos de R$ 150 milhões, com a criação da  Faculdade de Tecnologia Senai Pernambuco e dos institutos de tecnologia e inovação, além da abertura de novas unidades técnicas em Ipojuca, Goiana e Jaboatão.
Outra instituição de formação que ganhou uma nova projeção nos últimos anos e tem um amplo projeto de expansão é o IFPE. A partir deste ano sete novos campi serão abertos em Pernambuco. Na região norte do Estado, onde estão sendo formados dois grandes polos industriais, a instituição abrirá quatro unidades (Igarassu, Paulista, Abreu e Lima e Olinda) “Houve uma preocupação do Governo Federal em, estrategicamente, situar esses equipamentos devido à chegada dos polos farmacoquímico, automobilístico e demais indústrias e empresas satélites a serem instaladas naquela localidade. Trata-se de uma oportunidade aos moradores desses municípios de se qualificarem para ocupar esses postos de trabalho”, declara a reitora Cláudia Sansil.

Dos campi do IFPE, sem dúvida o de Ipojuca é o que está mais próximo desse novo momento da economia pernambucana. Vizinho a grandes empreendimentos industriais como a Refinaria Abreu e Lima e os estaleiros, a instituição federal oferece cursos técnicos de construção naval, automação industrial, petroquímica, entre outros. O aproveitamento dos primeiros formandos em algumas dessas formações é um dos fatores a se comemorar. 

ALÉM DA INDÚSTRIA. Se as vagas de emprego nas grandes indústrias que se instalam no Estado enchem os olhos dos jovens pernambucanos de expectativas, os efeitos dessa injeção de recursos na economia local e a ampliação do número de profissionais com maior poder aquisitivo criam também grandes oportunidades indiretas. “Além desse olhar sobre as possibilidades de ocupação na indústria, onde o nível exigido de qualificação é bem elevado, há uma grande aposta sobre os empregos gerados a partir da nova demanda de serviços. O efeito renda gerado pelos trabalhadores dessa nova indústria irá impulsionar os serviços modernos não apenas no Recife, mas também no interior”, declara o economista e professor da Unicap, Valdeci Monteiro.

Um setor que também deverá ampliar o seu quadro de profissionais e exigir maior qualificação é a gestão pública. A captação de mais impostos e o surgimento de novas pressões sociais e de infraestrutura colocam em xeque a atuação mais amadora do poder público municipal.

Outra oportunidade para os pernambucanos destacada pelo economista é o desafio de participar da cadeia produtiva desses novos segmentos produtivos, mesmo que de forma indireta. “Além da qualificação dos trabalhadores, é importante olhar para os empresários e empreendedores locais.  Esses novos segmentos exigem uma grande adaptação das empresas locais para que possam se tornar fornecedoras dos fornecedores. Mas fazer essa indústria local engatar nessas cadeias não é tarefa fácil”, declara Valdeci. Grandes gargalos em inovação e as dificuldades com a captação de financiamento são alguns dos pontos críticos enfrentados pelo empresariado local.

domingo, 4 de agosto de 2013

A mão que move a economia

Os bilhões de investimentos públicos e privados destinados à indústria pernambucana começam a dar formas definitivas as grandes empresas que devem ser o motor da nova economia do Estado nas próximas décadas. Alguns desses grandes parques industriais, como a PetroquímicaSuape, já estão em operação. E em pouco mais de um ano a maioria já deve estar concluída. Diante dos milhares de postos de trabalho que já começam a ser abertos - em cidades onde antes predominava a cultura da cana-de-açúcar ou atividades econômicas com menor valor agregado - reside um grande teste para o esforço feito na qualificação de mão de obra em Pernambuco nos últimos anos.

Não há dúvida que o anúncio dos grandes empreendimentos em Pernambuco impulsionou os investimentos em formação dos jovens que estão entrando no mercado e na requalificação dos trabalhadores que já estavam na ativa. Governo do Estado, Sistema “S”, além das universidades e do IFPE (antigo Cefet) têm números elevados de estudantes que passaram por cursos ligados aos novos segmentos econômicos - como os setores naval, farmacoquímico e de petróleo e gás - e aos antigos segmentos que estão se renovando para aproveitar a nova dinâmica econômica que os rodeia.

Porém, mesmo frente ao esforço das diversas instituições de ensino que atuam no Estado, o déficit educacional da população fez algumas empresas buscarem trabalhadores fora das fronteiras pernambucanas e até fora do Brasil. Um dos indicadores que comprovam essa realidade é o crescimento dos estrangeiros que desembarcaram no Estado para trabalhar. Segundo números do Ministério do Trabalho e Emprego, entre 2011 e 2012 houve um crescimento de 87,6% do número de autorizações concedidas a imigrantes internacionais para trabalhar em Pernambuco. Os portugueses são maioria entre os “trabalhadores importados”.

Se os indicadores de importação de mão de obra de Pernambuco desse primeiro trimestre se mantiverem ao longo de 2013, o Estado receberá mais de mil novos estrangeiros neste ano. O gargalo, no entanto, não é regionalizado, mas nacional. Outros seis Estados brasileiros tem números ainda maiores de imigrantes vindos a trabalho, principalmente para atuar na cadeia produtiva de petróleo e gás, justamente o setor que Pernambuco dá os primeiros passos.

Apesar da vinda de estrangeiros e de profissionais de outros Estados para Pernambuco, apenas no ano de 2012 a Secretaria de Qualificação, Trabalho e Empreendedorismo, do Governo do Estado, promoveu através de várias parcerias a qualificação de mais de 40 mil jovens. Só o Pronatec foi responsável pela formação de 16,7 mil alunos em cursos técnicos profissionalizantes com carga horária de 160 horas. Após a corrida para qualificação de mão de obra para construção civil, as cadeias petrolífera e automobilística - que terá  a Fiat  como grande player no Estado – são os novos alvos estratégicos das capacitações nos programas de formação.

MUDANÇA DO EMPREGO. Diferente dos últimos anos, quando Pernambuco se destacava entre os Estados com maior geração de oportunidades de trabalho, os últimos balanços apontam para uma desaceleração do crescimento do estoque emprego formal. Nos cinco primeiros meses do ano, enquanto o índice nacional de geração de empregos foi 2,6%, o Estado amargou um crescimento de apenas 1,37%, inferior até que a média da região Nordeste.

E de acordo com os dados do Ministério do Trabalho e Emprego, foi justamente a indústria a responsável por empurrar para baixo o desempenho do Estado. Entre os meses de maio de 2012 e 2013, houve o fechamento de mais de 300 empregos no setor de transformação. O arrefecimento da construção civil é outro fator que colaborou para os indicadores de baixo crescimento. No mesmo período o desligamento foi de duas mil pessoas.

Entre as atividades da indústria da transformação, segundo os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, é o segmento da “Indústria de produtos alimentícios, bebidas e álcool etílico” que tem sido responsável pela redução do estoque de empregos. Em um ano foram 5,5 mil vagas fechadas. Em contraposição, os segmentos de produção têxtil, de materiais para transporte, de produtos minerais não metálicos e até mesmo a indústria mecânica vem contratando mais gente nos últimos meses. Juntas, essas quatro áreas somaram quase 4 mil vagas abertas nos últimos 12 meses.

Enquanto os parques industriais estão em construção e grandes obras de infraestrutura ao longo do Estado estão em andamento, os números mais pujantes do estoque de emprego ainda se concentram na indústria da construção. Segundo dados elaborados pela Ceplan, na última década o segmento apresentou um crescimento anual na taxa de empregos formais de 12,9%. O estoque de trabalhadores empregados na construção civil no Estado saltou de 44,4 mil, em 2012, para 151 mil, em 2012. Concomitantemente, a indústria da transformação, mesmo com a inauguração de algumas fábricas, vem apresentando déficits de empregos, devido, entre outros fatores, ao desmonte da indústria sucroalcoleira.

Com a conclusão das grandes obras, o cenário do emprego sinaliza para uma tendência diferente nos próximos anos. “Existe um cenário de crescimento claro da indústria da transformação. Não é possível ainda prever o quanto essa mudança na economia pernambucana irá representar no estoque de trabalhos formais, porque o emprego é uma variável muito volátil e depende de muitos fatores. Mas quando olhamos o potencial desse segmento industrial, imaginamos um crescimento bastante elevado. Refinaria, petroquímica, estaleiros, Fábrica da Fiat e sistemistas, trazem demandas por emprego que não existe hoje”, declara o economista Júlio Becher, coordenador da Unidade de Economia Estudos e Pesquisa (UEP) da FIEPE.

Junto as oportunidades que surgem com os novos empregos da indústria da transformação, se acentua o desafio de formação profissional, visto que as novas oportunidades demandam trabalhadores com nível de qualificação superior ao exigido pela construção civil, por exemplo. De acordo com a secretária executiva de trabalho e qualificação, Angela Mochel, mesmo quando o foco da formação era a construção civil, o Estado vinha investindo em profissionais para atuar na operação industrial.

“A ideia, desde o principio, não era se voltar só para a construção civil. Desde a chegada dessas novas empresas ao Estado, realizamos pré-estudos da sua operação, preparando inclusive algumas linhas de capacitação focada em setores mais específicos, como o de petróleo e gás para os estaleiros”, declara Mochel. Para 2013, a meta da Secretaria de Qualificação, Trabalho e Empreendedorismo (SQTE) é de garantir formação ou requalificação para 46,7 mil profissionais. Além dos cursos voltados para a indústria, destacam-se também as oportunidades ligadas ao evento da Copa do Mundo 2014.

Para evitar ou minimizar o apagão de mão de obra que aconteceu na construção civil, assim que vários empreendimentos públicos e privados começaram a sair do papel, a SQTE tem procurado se antecipar à operação das fábricas. “O nosso maior desafio é ter fôlego para atender o volume de empresas que demandam profissionais qualificados no Estados. Esse é um bom problema. Cada dia uma nova empresa chega até nós. Não vamos deixar passar esse capítulo importante da nossa história sem dar oportunidade para que os pernambucanos participem dele trabalhando”, afirma a secretária.

Na prática, além da imensa quantidade de pessoas em formação, duas barreiras têm sido citadas pelas instituições de ensino: o déficit de formação dos estudantes que chegam ao ensino técnico em algumas cidades, sendo necessário primeiro um reforço escolar; e a própria formulação do curso e formação de professores, visto que em muitos desses segmentos não havia docentes no Estado. Na cadeia de petróleo e gás, por exemplo, foram capacitadas 200 pessoas que foram absorvidas no mercado só para treinamentos de outros profissionais.

A sincronia das empresas com as instituições de formação é o caminho almejado para que o mercado tenha o profissional que deseja e que a população local se direcione para as áreas onde existe a demanda por mão de obra. A Petrobrás, por exemplo, tem impulsionado parcerias com instituições como Senai e IFPE para potencializar os moradores das cidades que estão na área de influência das fábricas. De acordo com a assessoria da empresa, o Complexo PetroquímicaSuape, (PQS) firmou parcerias para formação de operadores e outras funções ligadas ao segmentos petroquímico e têxtil. Já na Refinaria Abreu e Lima, 60% dos trabalhadores das obras são pernambucanos.

Nas áreas que já estão em funcionamento, já trabalham na PQS mais de mil pessoas. Esse número chegará a 1,8 mil, quando todos os parques estiverem em atividade. Na Refinaria Abreu e Lima há uma previsão de mil trabalhadores na operação.

Um dos pernambucanos que encontrou o seu espaço nessa nova economia do Estado foi Aldembergue Pereira, 28 anos. Morador do Cabo de Santo Agostinho, cidade vizinha do polo de Suape, ele passou na seleção pública realizada pela PetroquímicaSuape e já está trabalhando como operador de processos.
Antes da vaga sonhada, Aldembergue fez o curso técnico em petroquímica do IFPE de Ipojuca e se formou ainda em química pela Etepam e em eletromecânica no Senai da sua cidade. “A formação nessa área que é nova em Pernambuco amplia muito o mercado para mim. Tanto a petroquímica quanto a refinaria estão dando melhorada na empregabilidade. E as oportunidades de formação estão ajudando as pessoas daqui a aproveitarem essas vagas. Muitas pessoas aqui do Cabo e também do Recife estão em Suape”, diz o profissional que está trabalhando na fábrica de PTA, a primeira em operação da petroquímica.

Se a formação de Aldembergue foi mais específica, uma série de outros profissionais técnicos, demandados pela indústria em geral, já são escassos no mercado. De acordo com pesquisa realizada pelo Senai junto às indústrias, as profissões técnicas mais procuradas no estado hoje são: técnico em eletromecânica, técnico em segurança do trabalho, técnico em eletrotécnica, técnico em manutenção automotiva, técnico em eletrônica e técnico em redes de computadores. O estudo indicou ainda que além das oportunidades de trabalho na construção civil e na operação dos parques industriais, um dos grandes gargalos de mão de obra em vários segmentos é na área de gestão.

sábado, 18 de maio de 2013

O dia que o Recife parou


Desde a madrugada e hoje (17/05) os moradores do Grande Recife sofreram com as águas da chuva que tomaram conta das vias públicas e calçadas das cidades que compõe a região metropolitana. Pedestres, ciclistas, motoristas e usuários de transporte público foram vítimas do resultado da queda de mais de 120 milímetros de chuva, segundo o Instituto Climatempo. O índice corresponde a quase um terço do esperado para todo o mês de maior. Mas o caos vivido pelo recifense hoje não é nenhuma novidade. Foi apenas mais um dia em que o Recife parou.

Há dois anos o ex-prefeito João da Costa foi surpreendido em meio a uma viagem de lazer a Madrid com a notícia que a cidade sofria debaixo d’água. Geraldo não viajou, mas a cidade mais uma vez afundou. O drama vivido pelos recifenses hoje é um filme que se repete a cada inverno. E olha que a estação sequer começou.

Segundo o balanço da Secretaria Executiva de Defesa Civil, entre a madrugada de ontem e o meio-dia de hoje, foram registradas 173 ocorrências na cidade - entre solicitações para colocação de lonas, chamados de deslizamentos, pedidos de vistorias, queda de árvores. A Polícia Rodoviária Federal informa também que a quantidade de acidentes nas estradas cresceu nesta sexta-feira. Mas os números sequer se aproximam do número de carros parados nas vias, de ruas alagadas e de trabalhadores com o celular na mão tirando fotos e informando ao patrão que não daria para chegar ao emprego.

Faltando poucos dias para a inauguração da Arena Pernambuco e algumas semanas para a estréia da Copa das Confederações, o comentário geral da cidade é acerca da preparação do Recife para receber o evento internacional. Mas dessa dúvida nasce a constatação de que “o legado da Copa em infraestrutura”, que justificaria todo o esforço estatal para os gastos, ainda não é sensível ao cotidiano dos recifenses. E, provavelmente, não o será.

Se por um lado não se pode culpar de todo a atual gestão municipal com a reincidência desse problema crônico da cidade, por outro as cobranças para que a Prefeitura que haja preventivamente deve crescer. O discurso do planejamento tem que sair do papel e a cidade necessita de intervenções para sofrer menos com as chuvas.

A falta de investimentos em infraestrutura das cidades brasileiras, as vezes sob a justificativa de falta de recursos, acaba sendo penalizada com a necessidade de aportes emergenciais em operações de tapa buracos, lonas para áreas de riscos, entre outras atividades dos órgãos públicos em momentos críticos – que em geral são mais caros e ineficientes até no médio prazo.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Mais Análise

O blog se propõe a ser um espaço crítico e informativo sobre a economia e a gestão pública no Estado de Pernambuco. Sem a pretensão de ser um veículo de notícias, o Mais Análise, que integra o site da Revista Algomais (www.revistaalgomais.com.br), tem por objetivo aprofundar alguns temas de maior relevância do Estado, buscando sempre trazer um olhar dos impactos sociais que as decisões estratégicas do poder público e da iniciativa privada terão.

No Estado em que a sua economia vem crescendo acima da média nacional nos últimos cinco anos, com investimentos bilionários e um acelerado processo de reindustrialização, são grandes os desafios de aproveitar o momento e garantir - mais que números - uma maior qualidade de vida a sua população, com crescimento de renda, empregos de maior qualidade e superação dos déficits sociais históricos.

ECONOMIA Suape é a região que mais recebeu investimentos, trazendo a indústria naval e do petróleo para PE