domingo, 18 de agosto de 2013

"Diploma representa passaporte para vida melhor"

Reitora do IFPE, Cláudia Sansil, fala sobre os investimentos em qualificação de mão de obra e do impacto da chegada desses centros de formação no crescimento profissional dos jovens.

Quais os planos de expansão do IFPE para atender as demandas de formação desse novo momento do Estado?
Estamos iniciando a Fase III da Expansão da Rede Federal. O IFPE recebeu 7 novos campi.  O Governo Federal destina 7,5 milhões para cada unidade. Em alguns casos, as prefeituras aportam valores com vistas a terem um campus mais completo à comunidade. A chegada de uma unidade representa muito à cidade. Significa desenvolvimento, realização do sonho de muitas famílias de qualificação e de formação. O diploma representa o passaporte a uma vida melhor. Com a formação técnica qualificada do IFPE, a remuneração será, em média, 30% maior dos que não possuírem o diploma.

Em Ipojuca, vocês tem algum retorno das empresas sobre o desempenho e o aproveitamento dos alunos no mercado?
O campus Ipojuca é modelo. Tem uma localização privilegiada, está cravado no entorno de empresas e de indústrias. Nos diálogos com as empresas, buscamos compreender as demandas e fazemos adequações para estabelecermos sintonia com elas. Desde o início das aulas o estudante é posto em contato com seus possíveis empregadores. Os laços estreitos geram oportunidades. Muitos de nossos estudantes nem terminam a formação e já estão empregados.

Há um esforço do poder público na capacitação de mão de obra em Pernambuco, para atender a demanda urgente por profissionais. Após esse primeiro momento de milhares de oportunidades de qualificação, quais o passo seguinte para reverter esse gargalo de mão de obra?
Políticas públicas permanentes e não sazonais. Nunca se investiu tanto em educação como na última década. Só no nível federal foram aportados pelo Ministério da Educação, em 2012, R$ 8,28 bilhões. O orçamento do IFPE é maior do que alguns pequenos municípios, R$ 200 milhões, sem a folha de pagamento. Esse cenário ainda não é o ideal, pois o passivo é gigantesco. Uma nação para ser grande precisa investir forte em educação. É preciso priorizar a carreira do magistério, ampliar a formação continuada dos professores e técnicos, possibilitar condições de trabalho dignas a educadores, além de cuidar da educação básica. Alicerçando esses pilares, deve-se estabelecer um plano com metas e definir quais as prioridades a partir do crescimento econômico e das necessidades apontadas pelo mercado.

domingo, 11 de agosto de 2013

Crescem as estruturas de formação de mão de obra no Estado

 Ao passo que crescem as oportunidades de trabalho e que aumenta a pressão por mão de obra, as instituições de formação profissional do Estado vêm aumentando o número de vagas e as opções de cursos. Só no Senai, a oferta de vagas saltou de 24,5 mil no ano de 2006 para quase 70 mil no ano passado. Em 2013, nos cinco primeiros meses do ano, foram registradas 32,6 mil matrículas. Além do maior volume de alunos nas salas de aula, a quantidade de bolsas para estudo gratuito também tem crescido consideravelmente. Em 2012, 14,4 mil estudantes se capacitaram gratuitamente na instituição.

Para dar conta da nova dinâmica econômica do Estado e seguir aumentando e qualificando a oferta de formação profissional, a instituição vem recebendo investimentos elevados. Só no ano passado foram mais de R$ 24,6 milhões. Para os próximos três anos as expectativas são de investimentos de R$ 150 milhões, com a criação da  Faculdade de Tecnologia Senai Pernambuco e dos institutos de tecnologia e inovação, além da abertura de novas unidades técnicas em Ipojuca, Goiana e Jaboatão.
Outra instituição de formação que ganhou uma nova projeção nos últimos anos e tem um amplo projeto de expansão é o IFPE. A partir deste ano sete novos campi serão abertos em Pernambuco. Na região norte do Estado, onde estão sendo formados dois grandes polos industriais, a instituição abrirá quatro unidades (Igarassu, Paulista, Abreu e Lima e Olinda) “Houve uma preocupação do Governo Federal em, estrategicamente, situar esses equipamentos devido à chegada dos polos farmacoquímico, automobilístico e demais indústrias e empresas satélites a serem instaladas naquela localidade. Trata-se de uma oportunidade aos moradores desses municípios de se qualificarem para ocupar esses postos de trabalho”, declara a reitora Cláudia Sansil.

Dos campi do IFPE, sem dúvida o de Ipojuca é o que está mais próximo desse novo momento da economia pernambucana. Vizinho a grandes empreendimentos industriais como a Refinaria Abreu e Lima e os estaleiros, a instituição federal oferece cursos técnicos de construção naval, automação industrial, petroquímica, entre outros. O aproveitamento dos primeiros formandos em algumas dessas formações é um dos fatores a se comemorar. 

ALÉM DA INDÚSTRIA. Se as vagas de emprego nas grandes indústrias que se instalam no Estado enchem os olhos dos jovens pernambucanos de expectativas, os efeitos dessa injeção de recursos na economia local e a ampliação do número de profissionais com maior poder aquisitivo criam também grandes oportunidades indiretas. “Além desse olhar sobre as possibilidades de ocupação na indústria, onde o nível exigido de qualificação é bem elevado, há uma grande aposta sobre os empregos gerados a partir da nova demanda de serviços. O efeito renda gerado pelos trabalhadores dessa nova indústria irá impulsionar os serviços modernos não apenas no Recife, mas também no interior”, declara o economista e professor da Unicap, Valdeci Monteiro.

Um setor que também deverá ampliar o seu quadro de profissionais e exigir maior qualificação é a gestão pública. A captação de mais impostos e o surgimento de novas pressões sociais e de infraestrutura colocam em xeque a atuação mais amadora do poder público municipal.

Outra oportunidade para os pernambucanos destacada pelo economista é o desafio de participar da cadeia produtiva desses novos segmentos produtivos, mesmo que de forma indireta. “Além da qualificação dos trabalhadores, é importante olhar para os empresários e empreendedores locais.  Esses novos segmentos exigem uma grande adaptação das empresas locais para que possam se tornar fornecedoras dos fornecedores. Mas fazer essa indústria local engatar nessas cadeias não é tarefa fácil”, declara Valdeci. Grandes gargalos em inovação e as dificuldades com a captação de financiamento são alguns dos pontos críticos enfrentados pelo empresariado local.

domingo, 4 de agosto de 2013

A mão que move a economia

Os bilhões de investimentos públicos e privados destinados à indústria pernambucana começam a dar formas definitivas as grandes empresas que devem ser o motor da nova economia do Estado nas próximas décadas. Alguns desses grandes parques industriais, como a PetroquímicaSuape, já estão em operação. E em pouco mais de um ano a maioria já deve estar concluída. Diante dos milhares de postos de trabalho que já começam a ser abertos - em cidades onde antes predominava a cultura da cana-de-açúcar ou atividades econômicas com menor valor agregado - reside um grande teste para o esforço feito na qualificação de mão de obra em Pernambuco nos últimos anos.

Não há dúvida que o anúncio dos grandes empreendimentos em Pernambuco impulsionou os investimentos em formação dos jovens que estão entrando no mercado e na requalificação dos trabalhadores que já estavam na ativa. Governo do Estado, Sistema “S”, além das universidades e do IFPE (antigo Cefet) têm números elevados de estudantes que passaram por cursos ligados aos novos segmentos econômicos - como os setores naval, farmacoquímico e de petróleo e gás - e aos antigos segmentos que estão se renovando para aproveitar a nova dinâmica econômica que os rodeia.

Porém, mesmo frente ao esforço das diversas instituições de ensino que atuam no Estado, o déficit educacional da população fez algumas empresas buscarem trabalhadores fora das fronteiras pernambucanas e até fora do Brasil. Um dos indicadores que comprovam essa realidade é o crescimento dos estrangeiros que desembarcaram no Estado para trabalhar. Segundo números do Ministério do Trabalho e Emprego, entre 2011 e 2012 houve um crescimento de 87,6% do número de autorizações concedidas a imigrantes internacionais para trabalhar em Pernambuco. Os portugueses são maioria entre os “trabalhadores importados”.

Se os indicadores de importação de mão de obra de Pernambuco desse primeiro trimestre se mantiverem ao longo de 2013, o Estado receberá mais de mil novos estrangeiros neste ano. O gargalo, no entanto, não é regionalizado, mas nacional. Outros seis Estados brasileiros tem números ainda maiores de imigrantes vindos a trabalho, principalmente para atuar na cadeia produtiva de petróleo e gás, justamente o setor que Pernambuco dá os primeiros passos.

Apesar da vinda de estrangeiros e de profissionais de outros Estados para Pernambuco, apenas no ano de 2012 a Secretaria de Qualificação, Trabalho e Empreendedorismo, do Governo do Estado, promoveu através de várias parcerias a qualificação de mais de 40 mil jovens. Só o Pronatec foi responsável pela formação de 16,7 mil alunos em cursos técnicos profissionalizantes com carga horária de 160 horas. Após a corrida para qualificação de mão de obra para construção civil, as cadeias petrolífera e automobilística - que terá  a Fiat  como grande player no Estado – são os novos alvos estratégicos das capacitações nos programas de formação.

MUDANÇA DO EMPREGO. Diferente dos últimos anos, quando Pernambuco se destacava entre os Estados com maior geração de oportunidades de trabalho, os últimos balanços apontam para uma desaceleração do crescimento do estoque emprego formal. Nos cinco primeiros meses do ano, enquanto o índice nacional de geração de empregos foi 2,6%, o Estado amargou um crescimento de apenas 1,37%, inferior até que a média da região Nordeste.

E de acordo com os dados do Ministério do Trabalho e Emprego, foi justamente a indústria a responsável por empurrar para baixo o desempenho do Estado. Entre os meses de maio de 2012 e 2013, houve o fechamento de mais de 300 empregos no setor de transformação. O arrefecimento da construção civil é outro fator que colaborou para os indicadores de baixo crescimento. No mesmo período o desligamento foi de duas mil pessoas.

Entre as atividades da indústria da transformação, segundo os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, é o segmento da “Indústria de produtos alimentícios, bebidas e álcool etílico” que tem sido responsável pela redução do estoque de empregos. Em um ano foram 5,5 mil vagas fechadas. Em contraposição, os segmentos de produção têxtil, de materiais para transporte, de produtos minerais não metálicos e até mesmo a indústria mecânica vem contratando mais gente nos últimos meses. Juntas, essas quatro áreas somaram quase 4 mil vagas abertas nos últimos 12 meses.

Enquanto os parques industriais estão em construção e grandes obras de infraestrutura ao longo do Estado estão em andamento, os números mais pujantes do estoque de emprego ainda se concentram na indústria da construção. Segundo dados elaborados pela Ceplan, na última década o segmento apresentou um crescimento anual na taxa de empregos formais de 12,9%. O estoque de trabalhadores empregados na construção civil no Estado saltou de 44,4 mil, em 2012, para 151 mil, em 2012. Concomitantemente, a indústria da transformação, mesmo com a inauguração de algumas fábricas, vem apresentando déficits de empregos, devido, entre outros fatores, ao desmonte da indústria sucroalcoleira.

Com a conclusão das grandes obras, o cenário do emprego sinaliza para uma tendência diferente nos próximos anos. “Existe um cenário de crescimento claro da indústria da transformação. Não é possível ainda prever o quanto essa mudança na economia pernambucana irá representar no estoque de trabalhos formais, porque o emprego é uma variável muito volátil e depende de muitos fatores. Mas quando olhamos o potencial desse segmento industrial, imaginamos um crescimento bastante elevado. Refinaria, petroquímica, estaleiros, Fábrica da Fiat e sistemistas, trazem demandas por emprego que não existe hoje”, declara o economista Júlio Becher, coordenador da Unidade de Economia Estudos e Pesquisa (UEP) da FIEPE.

Junto as oportunidades que surgem com os novos empregos da indústria da transformação, se acentua o desafio de formação profissional, visto que as novas oportunidades demandam trabalhadores com nível de qualificação superior ao exigido pela construção civil, por exemplo. De acordo com a secretária executiva de trabalho e qualificação, Angela Mochel, mesmo quando o foco da formação era a construção civil, o Estado vinha investindo em profissionais para atuar na operação industrial.

“A ideia, desde o principio, não era se voltar só para a construção civil. Desde a chegada dessas novas empresas ao Estado, realizamos pré-estudos da sua operação, preparando inclusive algumas linhas de capacitação focada em setores mais específicos, como o de petróleo e gás para os estaleiros”, declara Mochel. Para 2013, a meta da Secretaria de Qualificação, Trabalho e Empreendedorismo (SQTE) é de garantir formação ou requalificação para 46,7 mil profissionais. Além dos cursos voltados para a indústria, destacam-se também as oportunidades ligadas ao evento da Copa do Mundo 2014.

Para evitar ou minimizar o apagão de mão de obra que aconteceu na construção civil, assim que vários empreendimentos públicos e privados começaram a sair do papel, a SQTE tem procurado se antecipar à operação das fábricas. “O nosso maior desafio é ter fôlego para atender o volume de empresas que demandam profissionais qualificados no Estados. Esse é um bom problema. Cada dia uma nova empresa chega até nós. Não vamos deixar passar esse capítulo importante da nossa história sem dar oportunidade para que os pernambucanos participem dele trabalhando”, afirma a secretária.

Na prática, além da imensa quantidade de pessoas em formação, duas barreiras têm sido citadas pelas instituições de ensino: o déficit de formação dos estudantes que chegam ao ensino técnico em algumas cidades, sendo necessário primeiro um reforço escolar; e a própria formulação do curso e formação de professores, visto que em muitos desses segmentos não havia docentes no Estado. Na cadeia de petróleo e gás, por exemplo, foram capacitadas 200 pessoas que foram absorvidas no mercado só para treinamentos de outros profissionais.

A sincronia das empresas com as instituições de formação é o caminho almejado para que o mercado tenha o profissional que deseja e que a população local se direcione para as áreas onde existe a demanda por mão de obra. A Petrobrás, por exemplo, tem impulsionado parcerias com instituições como Senai e IFPE para potencializar os moradores das cidades que estão na área de influência das fábricas. De acordo com a assessoria da empresa, o Complexo PetroquímicaSuape, (PQS) firmou parcerias para formação de operadores e outras funções ligadas ao segmentos petroquímico e têxtil. Já na Refinaria Abreu e Lima, 60% dos trabalhadores das obras são pernambucanos.

Nas áreas que já estão em funcionamento, já trabalham na PQS mais de mil pessoas. Esse número chegará a 1,8 mil, quando todos os parques estiverem em atividade. Na Refinaria Abreu e Lima há uma previsão de mil trabalhadores na operação.

Um dos pernambucanos que encontrou o seu espaço nessa nova economia do Estado foi Aldembergue Pereira, 28 anos. Morador do Cabo de Santo Agostinho, cidade vizinha do polo de Suape, ele passou na seleção pública realizada pela PetroquímicaSuape e já está trabalhando como operador de processos.
Antes da vaga sonhada, Aldembergue fez o curso técnico em petroquímica do IFPE de Ipojuca e se formou ainda em química pela Etepam e em eletromecânica no Senai da sua cidade. “A formação nessa área que é nova em Pernambuco amplia muito o mercado para mim. Tanto a petroquímica quanto a refinaria estão dando melhorada na empregabilidade. E as oportunidades de formação estão ajudando as pessoas daqui a aproveitarem essas vagas. Muitas pessoas aqui do Cabo e também do Recife estão em Suape”, diz o profissional que está trabalhando na fábrica de PTA, a primeira em operação da petroquímica.

Se a formação de Aldembergue foi mais específica, uma série de outros profissionais técnicos, demandados pela indústria em geral, já são escassos no mercado. De acordo com pesquisa realizada pelo Senai junto às indústrias, as profissões técnicas mais procuradas no estado hoje são: técnico em eletromecânica, técnico em segurança do trabalho, técnico em eletrotécnica, técnico em manutenção automotiva, técnico em eletrônica e técnico em redes de computadores. O estudo indicou ainda que além das oportunidades de trabalho na construção civil e na operação dos parques industriais, um dos grandes gargalos de mão de obra em vários segmentos é na área de gestão.